... e toda quarta feira, ela sai sem pressa pra voltar.
Anda, menina... desliga essa TV, que o mundo tá lá fora, e hoje a tarde promete.
Sai de você, faz o que der, dá o que tem e superavite teus déficits, vive logo.
Chega lá, diz oi, provoca, sobe, compra. Aí vai pro bar, e espera.
E vê, e revê, e beija, e dá parabéns. E vê palhaçada, e entra na guerra, e atira e se fere... com armas de chantilly.
E vai pra brincar, e se balança, e escorrega, e sobe, e cai.
E
enfrenta fila, menina, porque a tarde já vai raiar. E deixa eles
fazerem o resto, espera teu gelo, divide o tal bolo, olha pro céu... e
guarda na memória porque alguma coisa diz que quando o celeste se
enegrecer, vai ficar tudo melhor.
E bebe, e vê beber. E fica alegre, e vê se embebedar. E vê beijo, onde não deveria ter.
E ri, menina, porque Papai Noel é gay!
E testemunha de perto, junto com uma platéia infantil, o inédito vômito alheio.
E a noite tá caindo, e o mundo tá girando, e o céu já mudou, e a tua percepção também.
Corre, ri, gargalha, vê cair, ouve declarações de amizade, vê cenas de amor quase de outro mundo pra quem passava.
Volta
menina, te finge de sóbria, porque um demônio qualquer passou de
confete e serpentina e disse no pé do teu ouvido: "essa noite merece!"
Liga, mente, faz com que ela minta. Sente teu remorso ser devorado pela vontade de fugir.
Implore, se irrite, porque a outra menina tá com a chave da corrente na mão, e não quer se soltar.
Não adianta nada. Despede e vai se embebedar.
Diz que tem dezoito, que não vai ficar ali. Foge da polícia, troca teu dinheiro, escolhe o lugar.
Ah,
menina! Não te lembra quem pensou, mas te lembra que aprovou, que foi
doida, da varrida! Que pegou aquela reta, que entrou pela roleta,
carregando três contigo, que sentou, que tirou foto, que caiu, que
difamou Deus e o Diabo, que enalteceu Renato e Cazuza, que nem viu o
tempo passar... mas ele passou?
Que chegou lá! Que sentou, que
bebeu, que riu mais, ouvindo as histórias loucas de um bêbado grande se
negando a dar seu vinho a um bêbado pequeno.
Ah, menina... levanta, foge, que a coisa parece que vai esquentar mais que essa russa rasgando tua garganta.
E
dá uma mordida, e passa, passa, passa. Morde de novo, passa, passa,
passa... e compra outro e repete. Compra outro e repete. Compra outro e
repete.
E vai de russa, de russa imaculada, pega teus cubos jogados na sargeta, taca na russa, e bebe, bebe, bebe...
Sente embrulhar, sente salivar, chama por Deus e pelo falo, mas não dá muito resultado.
Bota pra fora, de uma vez só. Um segundo e tudo está no chão.
E vira de novo, e joga mais. Os pedaços da diversão de dois minutos atrás.
E
vê aquela doida te fazer rir de novo. Com perguntas, imitações, gestos,
e uma atuação que centenas de palcos implorariam pra mostrar.
Acha um bar e te encosta, porque menina, você tem cortesia até uma da manhã... aliás, até uma e onze!
Desce desse bar, vai pro do lado, que é de graça e você entra com aqueles dois lá de fora.
Gasta
mais dinheiro, dá adeus pros teus patins, pro teu fim de semana em
Petrópolis ou pra tua blusa nova. Mas continua, menina, segue a idéia
de superavitar seus déficits.
Vê que é lindo, vê que é loiro, vê que é gay. E repete.
E pensa no desejo, e esquece, senão fraqueja e deixa tudo desabar. Mas ah, menina... é difícil conseguir!
E bebe da cerveja ruim, e baba da decoração, e sai, vai respirar.
E percebe que são gringos, e chama a atenção, e corre pra ter o que fumar!
Que droga de iluminação que impediu de bater!
Volta
pra frente, conversa com eles, diz de novo que tem dezoito, vê a merda
do teu ego se surpreender, mas vá lá... é só elogio, sem chance de
pegar.
Vai pro outro lado, e tenta ler o coração partido de uma gorda que tenta se matar.
E fica louca com a xenofilia cega e preconceituosa dos três.
E fica quieta, vê a Lapa esvaziar.
E vê que é português, não inglês, nem espanhol.
E volta, menina. Vê a noite minguar, porque o tédio veio de bicicleta de Caxias... demorou, mas chegou!
Sente por um segundo o quão perto está. Mas não fraqueja, menina. Não estraga tudo. Põe na cabeça que é só o vício.
Aí fica vazio de novo. Sente falta. Mas não admite!
Volta pra casa, entra e deita no vagão, vê passar as estações, chega rápido lá.
Anda,
cidade. Pode apagar as luzes, o dia já raiou... a noite mais incrível
já morreu, e esse dia novo vem manso, com sono, e um demônio de pijama
passa e diz no pé do teu ouvido: "Esse dia padece".
Vê o primeiro sair, carrega a segunda. Dá a desculpa pro terceiro, porque você sabe, menina... ele também quer ir.
Ouve a última palavra, recebe aquilo que você sabe o que significa, e odeia com todas as forças a escolha que um dia você fez.
Senta no ponto, vê o tempo passar, estourando bolinhas na tela do celular.
Volta pra casa, menina. Toma teu banho e deita. Agora descansa, porque quarta-feira igual a essa, só na próxima vida.